Artigo: Desafios da crise energética e o ESG

 Por Luiz Marcatti e Herbert Steinberg*

Os intensos debates sobre o desenvolvimento sustentável têm impulsionado as sociedades, as empresas, as organizações e os governos a pensarem em ações realmente efetivas para se alcançar esse objetivo. Os desafios têm escala global, e, como tal, envolvem tentativas de acordos e alinhamentos das economias quanto ao uso de recursos naturais, com as esperadas resistências de algumas partes. De qualquer maneira, a agenda tem avançado, com uma visível mudança de comportamento das empresas, que a cada dia mais adotam diretrizes ESG, para responder às exigências de investidores e consumidores. Ocorre que as transformações de fato significativas dependem de uma mudança estrutural, que inclui a substituição gradativa dos combustíveis fósseis por energia obtida de fontes limpas.

É nesse contexto internacional de descarbonização, que o Brasil agora se vê, pela terceira vez neste século, inseguro para garantir o pleno abastecimento de energia para a população e para as empresas. Não falta competência técnica dos operadores do sistema elétrico nacional — herança do aprimoramento de novas tecnologias desenvolvidas nas últimas décadas —, e o País também conta com avanços no monitoramento das redes, melhor gerenciamento remoto e um eficiente sistema de supervisão e controle. Apesar disso, o tratamento dado às crises de fornecimento de energia ficou concentrado em questões conjunturais, como ajustes de demanda, controles tarifários e administração de reservatórios, em vez de se focar em aspectos estruturais.

A excessiva dependência brasileira da matriz hídrica para a geração de energia elétrica faz com que a maioria das ações contra crises de abastecimento seja pontual. Não por acaso, é comum que as preocupações girem em torno das previsões climáticas. A despeito dos avanços na geração e na distribuição de energia, sabe-se que dar atenção apenas a problemas sazonais não é uma boa estratégia no enfrentamento de situações como uma crise aguda de curto prazo de temas de mais amplo alcance, como mudanças climáticas, transição energética e descarbonização.

Essa conjunção de riscos conjunturais e estruturais escancarada na atual crise hídrica e energética é alvo constante das análises do professor Eduardo José Bernini, conselheiro independente e profissional com larga experiência em planejamento energético e empresarial, convidado da edição de novembro do MESA AO VIVO, espaço de debates do canal do Youtube da Mesa Corporate Governance.

Algumas preocupações destacadas por Bernini devem entrar no radar dos conselhos de administração e das instâncias corporativas encarregadas do direcionamento estratégico das empresas. Na avaliação dele, torna-se cada vez mais importante antecipar prováveis demandas que surgirão no âmbito da transição energética para novas fontes. Os desdobramentos de acordos como o da COP 26, recentemente encerrada, e as tensões entre os estados nacionais são uma demonstração de que os problemas são multifacetados, o que exige respostas. Esse é um dos motivos pelos quais as empresas devem estar preparadas em termos de governança. É bastante provável que, nessa nova dinâmica global, seja necessário cumprir regras estabelecidas por organismos multilaterais e em meio a um cenário de tensões geopolíticas.

A dimensão social do ESG tem uma inevitável correlação com o desenvolvimento sustentável. Diante da velocidade vertiginosa das transformações em curso no mundo, as empresas têm o desafio da requalificação e recolocação de capital humano, que impacta também na empregabilidade, renda e saúde — no “S”, portanto.

No Brasil, se não é possível ignorar os problemas e incertezas das próximas décadas, tampouco se deve desconsiderar o que pode ser feito agora. O agronegócio, por exemplo, é um setor que deve ser demandado de maneira crescente quanto às questões ambientais, para aliar produção e preservação. Paralelamente, estará mais exposto às externalidades decorrentes das cada vez mais intensas e presentes mudanças climáticas.

Do ponto de vista do fornecimento de energia elétrica, o Brasil deve adotar variadas fontes e soluções durante a transição — como o biocombustível — e se aproveitar do crescimento exponencial das novas tecnologias, que abrem espaço para hidrogênio verde e produção de energia eólica e solar. A diversificação significa uma geração distribuída de menor porte e descentralizada. Essa estratégia não resolve todos os problemas, mas reforça o portfólio, incentiva a inovação e a ruptura tecnológica necessárias à formação de alternativas descarbonificadas.

Esse amplo movimento em direção à transição energética exigirá esforços, terá custos e, como ressalta Bernini, enfrentará obstáculos como a falta de direcionamento estratégico dos países. As nações precisarão agir de forma estrutural, com efeitos possíveis inclusive sobre o atual modo de produção. De qualquer forma, diante da ameaça de mais curto prazo, representada pela emergência climática, é crucial que as empresas encontrem o equilíbrio dos aspectos ESG e estejam atentas a externalidades. Assim podem transformar essas preocupações em ações para mitigação de riscos e ganho de performance e resultados.

*Respectivamente, sócio e presidente e sócio, fundador e presidente do conselho da MESA Corporate Governance

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